Grandes e médios varejistas brasileiros começaram a testar a escala de trabalho 5×2 — cinco dias de expediente e dois de descanso — e relatam ganhos na atração de funcionários, redução da rotatividade e diminuição de faltas. O movimento ocorre em meio ao debate no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho no país.
Empresas como Supermercados Pague Menos, RD Saúde, dona das redes Droga Raia e Drogasil, e Savegnago já adotam experiências com o novo modelo em algumas unidades. Segundo executivos do setor, a possibilidade de dois dias de folga tem atraído mais candidatos em um momento de dificuldade para contratação no comércio.
Entidades do varejo afirmam que, após a pandemia, trabalhadores passaram a valorizar mais a flexibilidade e a qualidade de vida. A percepção é de que as novas gerações aceitam jornadas mais intensas ao longo do dia em troca de mais tempo livre durante a semana. Em muitos casos, os funcionários usam as folgas para estudar, descansar ou realizar trabalhos extras.
Além da retenção de mão de obra, empresas relatam redução de custos com vale-transporte, alimentação e afastamentos por acidentes de trajeto. Ainda assim, o modelo traz desafios operacionais, principalmente para pequenos negócios.
No comércio, a carga semanal atual é de até 44 horas. Para manter esse limite dentro da escala 5×2, a jornada diária sobe para cerca de 8 horas e 48 minutos. A reorganização das equipes exige escalas mais complexas e, em alguns casos, contratação de trabalhadores horistas para cobrir folgas e horários de pico.
Representantes de supermercados e shopping centers alertam que a mudança pode elevar despesas trabalhistas e pressionar pequenos lojistas. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), estabelecimentos com apenas três a cinco funcionários precisariam ampliar equipes para garantir cobertura das operações, o que poderia elevar os custos em até 40%.
A discussão ganhou força no Congresso após a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovar a tramitação de propostas que reduzem a jornada semanal de 44 para 36 horas e alteram o regime de escalas. O governo federal, porém, defende um limite de 40 horas semanais sem definir um modelo único de jornada.
Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que uma redução para 40 horas semanais exigiria a abertura de cerca de 980 mil vagas para compensar a diminuição da carga horária. A entidade calcula impacto de R$ 357,5 bilhões sobre os setores de comércio e serviços.
Pesquisa Datafolha aponta que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1. O tema se tornou uma das principais pautas trabalhistas do governo Lula e deve continuar no centro do debate entre empresários, trabalhadores e parlamentares ao longo de 2026.
Com informações de Felipe Mendes e Sylvia Miguel da Folhapress